Na sequência do meu post de ontem sobre "a degradação da nossa democracia", continuo na mesma linha de pensamento e falo-vos hoje sobre a corrupção nas altas esferas ...
Numa interessante entrevista na edição de 16 de Dezembro do Jornal "
O Diabo", o militante socialista Henrique Neto considerava a corrupção como "o maior cancro que o sistema não quer combater". Julgo que uma parte importante dos nossos políticos (de todos os quadrantes, uns mais, outros menos) - ao contrário do que possamos pensar - não está minimamente interessada em resolver esta verdadeira "instituição nacional", já que, com o desinteresse da população em geral pela política, conseguem, mais facilmente executar as suas manobras estratégicas como o controlo de bancos, de grandes empresas e da comunicação social ...
Recordo apenas que, nestes últimos anos, assistimos a uma dança de cadeiras nas direcções-gerais do Estado (um dos nossos grandes problemas, na minha opinião, que Henrique Neto também corrobora na mesma entrevista) e nas grandes empresas públicas, ora com PS's, ora com PSD's, ora com CDS's. Creio que são casos demais para se tratarem (todos) de coinciências ...
Vejamos o caso de Carlos Santos Ferreira, que troca a presidência do maior banco público - a Caixa Geral de Depósitos (CGD) - pela liderança executiva (numa verdadeira "opa informal" do Estado, não digam que não ...) do maior banco privado português: o Millenium BCP (levando com ele o seu "braço direito" no marketing e informação da Caixa, o nosso bem conhecido Armando Vara - claramente escolhido pela sua larga e vasta experiência na área do "marketing", claro). Mas não é tudo ... Lembram-se do homem que dizia que "quem se mete com o PS leva ..." - Jorge Coelho: é hoje o líder da Mota-Engil, uma das maiores empresas de construção civil do espaço ibérico ... E Fernando Gomes? O ex-edil portuense - muito conhecido pela sua experiência no trabalho com petróleos (talvez por ser abastecedor de automóveis ... quem sabe?) - é nomeado administrador da GALP (empresa independente, pois claro ...)
Recordo igualmente o escandaloso caso Vítor Constâncio - o homem que falhou, sucessivamente, enquanto responsável pela regulação do sector bancário nos casos BPN e BPP e que teve a
distintíssima lata de dizer que estava a ser "politicamente perseguido" ... Claro, uma perseguição deve ter sim na sua conta bancária, perseguida (e precedida) pela sua reputação de ser o terceiro governador de Banco Central mais bem pago do mundo! Tendo apenas concorrência do líder do Banco Central de Hong Kong e de Itália - num país que, claro, pode dar-se ao luxo de viver à tripa forra e pagar lautos vencimentos a estes senhores ... Que vergonha! Que nojo!
Mas não se pense que apenas do lado socialista se passam estas "negociatas" ... Concentremos agora a nossa atenção no campo social democrata: lembram-se dessa eminência parda, qual comentador de ocasião, que é o Engenheiro Mira Amaral? Lembram-se que no período dos governos PSD-CDS (grosso modo 2002-2004, com um brevíssimo interlúdio em 2005) este homem era o líder da Caixa Geral de Depósitos? Pois na sua saída do cargo teve o privilégio - não nos esqueçamos que esteve a servir a pátria em altos serviços, claro ... - de saír com uma choruda reforma (que acumulará, decerto, pelo menos em parte, com as suas anteriores funções de governante e outras prebendas ...) que acumula com cargos no sector privado que lhe foram (a ele como a muitos) proporcionados, sobretudo, pelo seu cartão partidário ... O mesmo aconteceu - no caso da CGD - com Vítor Cruz, Celeste Cardona ... São as chamadas "reconversões" políticas das empresas públicas
Mas, afinal, prezados amigos e concidadãos, nada disto nos deve surpreender: grande parte destes nomes de que vos falei sentaram "o seu rabinho" no Parlamento, onde aprovaram leis que agora lhes permitem esta impunidade e este desplante ... A Política deixou de ser um serviço pela "polis" e passou a ser um serviço apenas de alguns
A esses senhores só lhes posso dizer "
sit tibi terra levis" ...