segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Os mercados não são parvos

"A despesa pública não é uma montanha, que precise de terraplanagem a golpes de IVA. É um vulcão que explode tanto mais quanto mais impostos lhe atiram para cima. Não vale a pena cortar-lhe um pedaço, como este Orçamento de 2011 pretende, porque o mal não está no nível mas na tendência imparável. Este é o monstro que fez fugir Guterres e Barroso e que Sócrates jurou vencer em 2005. (...) Já está na altura de perceber que as cócegas dos planos de austeridade só servem para o acirrar.

Porque todas as propostas apresentadas até hoje, quando não aumentam os impostos, engordando a besta, limitam-se a reduzir gastos sem mexer nas regras que os aceleram. Mesmo com forte descida pontual como esta, ao fim de algum tempo tudo volta ao mesmo. E mais uma vez, apesar das juras de só baixar a despesa, não se resistiu à obsessão de aumentar o IVA.

Não vale a pena continuar a perguntar, como se fez doentiamente estes dias, se as severas medidas anunciadas serão suficientes para resolver o problema. Elas simplesmente não se dirigem ao problema. São meros anestésicos e analgésicos de urgência, que tratam os sintomas enquanto o doente precisa de cirurgia e internamento prolongado. Apesar de estar lá há seis anos, o Governo vem sempre a correr às urgências.

O cancro a operar são os milhões em direitos, regalias, institutos, subsídios e salários, todos justificados, todos blindados na lei e que o País não pode pagar. Mesmo aparados aqui e ali, ressurgem sempre. Os acontecimentos destes meses mostram como os recipientes estão atentos na sua defesa. No próprio dia do anúncio das medidas os polícias estavam na rua por uma questão de promoções. Têm toda a razão. Não há é dinheiro.

O problema é político. Será que quem lidar mesmo com a situação se aguenta no poder? Não é por acaso que, dos países em dificuldades, Portugal foi o último a reagir. Os mercados percebem isto perfeitamente. O Orçamento de 2011 não é a prova que o Governo lida com a situação. São meras juras de drogado, que os credores, que não são parvos, conhecem à distância
".

João César das Neves, hoje, no DN

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Adivinhem quem tinha razão em 2009?

Artigo no Expresso de 3 de Outubro de 2009:

"O nosso nível de endividamento externo, o aumento do desemprego, o desequilíbrio das contas públicas, a baixa produtividade, a perda de competitividade, a divergência com a União Europeia constituem problemas estruturais muito sérios"

"Se não soubermos inovar, poupar e investir de forma produtiva [...] não será fácil explicar o que nos espera"

Manuela Ferreira Leite:
- Sempre falou que a dívida era imensa e um pesado fardo a combater
- Que não fazia sentido fazer mega-investimentos públicos, porque não havia dinheiro para pagar
- Que o TGV não poderia ser feito agora
- Que o PS não estava a falar verdade aos Portugueses

E ESTAVA EM TUDO CERTA!!!!!

Veja-se esta actualíssima análise de Luís Marques Mendes feita em 24 de Setembro de 2009, no Jornal I, sobre a urgência de ter votado PSD...

Também encontrarão uma boa leitura "reflexiva" sobre o que poderia ter sido votar PSD em 2009, através da pena de Sofia Galvão, então vice-presidente laranja, aqui

E, já agora, este texto de Biancard Cruz sobre a diferença entre PS e PSD.

Quem votou Sócrates 2009 sabia muito bem que era Sócrates...
Agora não se queixem!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Hipocrisia, Falsidade e Rancor


... caracterizam a reacção do Partido Comunista Português à atribuição, pela academia norueguesa, do prémio nobel da paz 2010 a Liu Xiaobo.

É triste, é inacreditável, mas a reacção aconteceu mesmo...

Com esta anacrónica, insólita e absolutamente vergonhosa declaração, o PCP mostra toda a sua credibilidade: é um partido de defende corporativamente a sua ideologia deformada, anquilosada e as suas práticas totalitárias, "no matter what it costs"...

Há muito que este partido desconhece o significado das palavras liberdade, alteridade, tolerância, opinião livre e cultura democrática...

Um partido assim não merece nada

domingo, 3 de outubro de 2010

100 anos de quê?

Vasco Pulido Valente escreve hoje, lucidamente, no "Público" verdades que muito custam ouvir e ler aos pseudo-intelectuais que se vão pavoneando no centenário da república:

"(…) Não admira que a República nunca se tenha conseguido consolidar. De facto, nunca chegou a ser um regime. Era um “estado de coisas”, regulamente interrompido por golpes militares, insurreições de massa e uma verdadeira guerra civil. Em pouco mais de 15 anos morreu muita gente: em combate, executada na praça pública pelo “povo” em fúria ou assassinada por quadrilhas partidárias, como em 1921 o primeiro-ministro António Granjo, pela quadrilha do “Dente de Ouro”. O número de presos políticos, que raramente ficou por menos de um milhar, subiu em alguns momentos a mais de 3.000. Como dizia Salazar, “simultânea ou sucessivamente” meio Portugal acabou por ir parar às democráticas cadeias da República, a maior parte das vezes sem saber porquê.

Em 2010, a questão é esta: como é possível pedir aos partidos de uma democracia liberal que festejem uma ditadura terrorista em que reinavam “carbonários” vigilantes de vário género e pêlo e a “formiga branca” do jacobinismo? Como é possível pedir a uma cultura política assente nos “direitos do homem e do cidadão” que preste homenagem oficial a uma cultura política que perseguia sem escrúpulos uma vasta e indeterminada multidão de “suspeitos” (anarquistas, anarco-sindicalistas, monárquicos, moderados e por aí fora)? Como é possível ao Estado da tolerância e da aceitação do “outro” mostrar agora o seu respeito por uma ideologia cuja essência era a erradicação do catolicismo? E, principalmente, como é possível ignorar que a Monarquia, apesar da sua decadência e da sua inoperância, fora um regime bem mais livre e legalista do que a grosseira cópia do pior radicalismo francês, que o 5 de Outubro trouxe a Portugal?
"

Penso que as questões levantadas pelo historiador merecem cuidada e aprofundada reflexão, para que a euforia dos festejos e os discurrsos fleumáticos não nos toldem a compreensão...